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Vantagens e desvantagens da hiperconexão

A hiperconectividade desafia o futuro das relações humanas  e a principal dificuldade está em equilibrar as vantagens do  meio com a necessidade de estar sempre disponível

“Não acredito que já está de férias novamente! ”. “Oba! Uma curtida”. “Quero uma blusa igual! ”. “O que será que ela está fazendo? ”. “Hoje vou postar aquela foto”. “Vou mandar uma mensagem”. Reconhece alguns desses monólogos internos? Assim são as reflexões atuais que vão definindo o comportamento no ambiente on -line e, principalmente, nas redes sociais, determinando a linguagem utilizada pelos nativos e imigrantes digitais para a sobrevivência e atualização no mundo cibernético. A sensação é que estamos conectados e disponíveis de forma irrestrita (e talvez de fato estejamos).
É difícil encontrar, independentemente da idade, alguém livre das notificações, embora estudos apontem que os usuários mais ativos estejam na faixa etária entre 18 e 24 anos. Ao todo, 181 milhões de brasileiros têm acesso à internet, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Esse é um processo irreversível e, para usá-lo em nosso benefício, temos que perceber como ele possibi-litou essa ampliação de fronteiras e o fato de estarmos conectados com as pessoas em qualquer lugar do mundo. Essa abertura de fronteiras oportuniza a globalização e a informação disponível para nós. Isso é um bem para humanidade, mas também nos faz construir guetos para podermos nos sentir pertencentes a algo”, analisa a psicóloga e consultora Gisele Accioly.

Ou seja, mudamos a forma como nos relacionamos e isso modifica as interações sociais e a forma como nos comunicamos. Na visão da psicanalista e psicóloga, mestre em Psicologia Clínica e Cultura pela Universidade de Brasília (UnB) e diretora de Publicações e Divulgação da Federação Brasileira de Psicanálise (Febrapsi), Cláudia Aparecida Carneiro, é preciso reconhecer a importância das redes sociais em um mundo marcado pelo individualismo e isola-mento social. “Seres humanos são seres sociais, de-pendem do outro e sentem necessidade de pertencer a um grupo”, destaca.
Sendo assim, como observa Cláudia, não podemos unicamente condenar o uso das redes sociais pelo seu papel ativo na formação de uma sociedade cada vez mais líquida. “Elas funcionam bem para as pessoas se comunicarem, manifestarem seus sentimentos e se identificarem com grupos e proporcionam prazer e sentimento de pertencimento, como seres sociais que somos”, complementa.

ACESSO PRECOCE

No mundo, 6% da população é viciada em internet de acordo com um levantamento realizado pela Universidade de Hong Kong. Há uma preocupação quanto às doenças que o uso excessivo do meio on-line está criando e, além disso, quanto à vulnerabilidade dos jovens à rede. Mais de 24 milhões de crianças e adolescentes têm acesso à internet no Brasil e 77% deles assistem a vídeos on-line, segundo dados do Comitê Gestor da Internet no Brasil.
Com o acesso começando logo aos nove anos de idade, é bom ficar de olho, principalmente no conteúdo. Confira alguns assuntos que podem ajudar a monitorar os pequenos e pequenas:

Boneca Momo 

Baleia Azul

Ciberbulling 

PONTO DE EQUILÍBRIO

O que vem desafiando profissionais da área da saúde eo próprio cidadão é o sintoma de dependência do meio. E, em alguns casos, sintomas de depressão e ansiedade estão sendo associados ao uso excessivo das redes sociais. Afinal, o nível de estresse do indivíduo está elevado e um dos motivos, além do excesso de trabalho, é a hiperconectividade. Segundo explica Gisele, sob o ponto de vista da Psicologia Arquetípica, o que se passa no meio digital é uma ampliação do arquétipo do deus grego Hermes. “O psicólogo James Hillman (1926-2011) falava de uma Intoxicação Hermética nesse início de século, se referindo às qualidades de impermanência, mudanças rápidas e hiperinformação. Hermes é o deus das fronteiras e da comunicação, e no meio digital há uma hipertrofia desse arquétipo no Inconsciente Coletivo”, analisa.
Dessa forma, estar on-line acaba sendo uma rota de fuga e, ao mesmo tempo, aprisionamento quando relacionado com questões como autoestima, tristeza, solidão, estresse. Um estudo de 2013, intitulado “Inveja no Face-book: uma ameaça oculta para a satisfação do usuário”, realizado na Alemanha pela Universidade Humboldt, mostrou que um em cada três usuários do Facebook se sentia mal e mais insatisfeito depois de visitar essa rede.
Como explica a diretora da Febrapsi, as patologias relacionadas à saúde mental não podem ser correlacionadas de forma imediata às redes e, sim, a um fator adicional ao que já está ocorrendo. “O que as redes sociais “oferecem” é uma dispersão, uma espécie de ilusão na maneira de você lidar com uma crise existencial. Elas não preenchem vazios nem resolvem angústias; quem enfrenta uma crise existencial não possui parâmetros de comparação com outras pessoas. A comparação não cria a crise. Por outro lado, as redes incitam o sentimento de inveja que leva à frustração e ao ressentimento”, pontua Cláudia.
Para Gisele, o meio estabelece padrões e existe a necessidade de se cumprir aquela expectativa. “O nível de exigência das próprias redes sociais traz toda essa beleza superficial demonstrada numa imagem do excessivamente belo. Isso gera angústia para que se mantenha essa imagem”, exemplifica e complementa que estamos sempre com a sensação de “olhar a grama do vizinho” e querer pertencer ao grupo daquela imagem.

É POSSÍVEL SER FELIZ?

Assim como o meio digital, as conclusões sobre o tema são bastante voláteis e vão exigir uma constante revisão dos usuários e especialistas sobre os riscos e benefícios. Literalmente, um aprendizado a bordo durante a busca de referências e conforto para se sentir parte do coletivo. “Não existe uma definição de felicidade que se enquadre em todos, indistintamente. Mas, certamente, o contato humano, não apenas virtual, mas a presença viva do outro em minha vida é fundamental para se alcançar o sentimento de felicidade”, destaca Cláudia.
De forma otimista, Gisele acredita que os sintomas de mal-estar causados são reflexos da instalação do novo. “A impressão que eu tenho é que, com o tempo isso vai ser vivido cada vez de uma forma mais harmônica e equilibrada, até mesmo pela patologia que o excesso está criando”, disse. Em meio a esse cenário, cabe aos nativos e imigrantes digitais não apenas aguardar a próxima atualização, mas fazerem parte dessa construção coletiva para uma nova e equilibrada realidade social.

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